Especialistas reforçam que o ideal é que os tratamentos sejam iniciados após a troca dos dentes anteriores, por volta dos 7 anos

Os tratamentos ortodônticos são essenciais para corrigir a maloclusão (ou má-oclusão), o alinhamento dos dentes e a posição dos ossos maxilares, melhorando a estética, a mastigação e a saúde bucal em geral. Especialistas recomendam que, a partir dos sete anos de idade, fase em que inicia a troca dos dentes de leite pelos permanentes, a criança passe por avaliação do cirurgião-dentista para identificar a necessidade de iniciar um tratamento ortodôntico. Nesse sentido, o programa CFO Esclarece destaca a importância do diagnóstico precoce das alterações oclusais.
O Sistema Conselhos de Odontologia, composto pelo do Conselho Federal de Odontologia (CFO) e os 27 Conselhos Regionais (CROs) de todo país, orienta que o acompanhamento odontológico desde a infância, com intervenções corretivas quando necessárias, contribui para o adequado desenvolvimento da oclusão e do crescimento craniofacial da criança, prevenindo casos mais complexos e proporcionando tratamentos mais assertivos.
A Associação Brasileira de Ortodontia (ABOR), em alinhamento com a American Association of Orthodontics (AAO), também orienta que familiares e cuidadores realizem agendamento de consultas de avaliação ortodôntica quando a criança chegue aos sete anos de idade, fase de troca dos dentes anteriores, momento em que os cirurgiões-dentistas podem identificar e diagnosticar condições que necessitam de tratamentos ortodônticos.
A presidente da Associação Brasileira de Ortodontia (ABOR), especialista, mestre e doutora em Ortodontia, Carla D’Agostini Derech, explica: “uma avaliação nessa idade é fundamental, pois podemos diagnosticar desarmonias no crescimento da face, assim como avaliar o espaço disponível para os dentes permanentes ainda não irrompidos, enquanto os dentes de leite (decíduos) ainda estão presentes. Isso é importante porque alguns problemas ortodônticos podem ser mais fáceis de corrigir se forem detectados precocemente. A maioria dos pacientes começa o tratamento corretivo (com aparelho fixo convencional) após a troca dos últimos dentes de leite, por volta dos 12 anos de idade”, justifica Carla.
Em complemento, a presidente da Sociedade Paulista de Ortodontia (SPO), especialista, mestre e doutora em Ortodontia, Soo Young Kim Weffort, reforça que a primeira avaliação ortodôntica deve ser realizada na fase de dentição decídua. Ela esclarece que isso não significa que o tratamento sempre será iniciado nessa idade e que, muitas vezes, apenas o acompanhamento periódico é suficiente até o momento ideal de intervenção com o aparelho ortodôntico.
“Nessa fase, as mordidas cruzadas devem ser observadas: discrepância transversal (mordida cruzada posterior) e anteroposterior (mordida cruzada anterior). Essas situações devem ser corrigidas, se possível, ainda na dentição decídua, pois impedem que o crescimento craniofacial se desenvolva incorretamente. O entendimento das fases da biogênese das dentições, ou seja, das fases de formação da dentição decídua, dentição mista e dentição permanente, trouxe muito esclarecimento e possibilitou ao ortodontista estabelecer o melhor momento para cada caso”, pontua Soo.
Carla Derech destaca que o cirurgião-dentista tem papel fundamental no aconselhamento, na prevenção da maloclusão, e na realização de pequenas intervenções que visam corrigir desvios no desenvolvimento bucal da criança, justamente enquanto ela está em fase de crescimento.
“Nesse período, é mais fácil corrigir a mordida cruzada, a mordida aberta e atuar nos problemas de espaço nas arcadas. Sendo assim, o tratamento corretivo, que trata a maloclusão instalada na dentição permanente, tende a ser menos extenso, com menor complexidade, o que reduz custos, proporciona melhores resultados e maior estabilidade da correção em longo prazo”, ressalta.
Além disso, ela pontua que, em alguns casos, o tratamento pode acontecer em conjunto com uma equipe multidisciplinar de saúde. “Em tratamentos associados, o profissional pode encaminhar o paciente para o otorrinolaringologista e/ou fonoaudiólogo, quando houver necessidade de atuação interdisciplinar na intervenção e tratamento de problemas do trato respiratório, e quando for necessário corrigir hábitos bucais que favorecem a maloclusão, como interposição de forças mecânicas provenientes de chupetas, sucção do polegar ou mal posicionamento da língua”, frisa.
Soo Weffort observa também que é preciso estar atento às mordidas cruzadas posteriores, pois estas podem ser corrigidas facilmente na fase de dentição decídua e mista. Ela complementa: “A falta de crescimento do terço médio facial também pode ser corrigida com aparelho de tração reversa nas fases de dentição decídua e mista, evitando, assim, cirurgias faciais no futuro, como a ortognática. A indicação do cirurgião-dentista clínico-geral e do odontopediatra na identificação do problema oclusal é fundamental para que o tratamento seja realizado na fase correta, sem que se antecipe ou se atrase com as possibilidades de intervenção.”
Principais causas das maloclusões
As maloclusões podem ter causas genéticas, ambientais ou epigenéticas. O padrão esquelético-facial é determinado geneticamente, mas pode ser influenciado por fatores como hábitos bucais, entre eles o uso prolongado de chupeta, sucção digital, interposição de língua ou lábios, respiração bucal crônica, desequilíbrios musculares posturais, trauma ou perda precoce de dentes decíduos, explica Soo.
No âmbito das causas ambientais, a cárie é um dos principais fatores, pois a perda precoce de dentes decíduos pode comprometer o equilíbrio da arcada, levando à movimentação dentária inadequada e, consequentemente, à impacção dos dentes permanentes. “Assim, o diagnóstico preciso da etiologia das maloclusões exige conhecimento técnico, experiência e comprometimento profissional, de modo que os fatores causais sejam identificados e controlados, garantindo resultados estáveis e duradouros”, observa Carla.
Tipos de aparelhos
As especialistas reforçam que cada caso é único e, por isso, destacam a importância das consultas odontológicas regulares. Cada tipo de aparelho será indicado conforme a necessidade do paciente.
Atualmente, os tratamentos ortodônticos utilizados são:
* Aparelhos ortodônticos com bráquetes fixos metálicos;
* Aparelhos ortodônticos com bráquetes estéticos (de safira ou cerâmica)• Aparelhos funcionais e ortopédicos removíveis, estimulam ou restringem o crescimento ósseo em pacientes em fase de desenvolvimento;
* Alinhadores transparentes: alternativa estética e confortável, indicada para adolescentes, adultos e idosos;
* Aparelhos removíveis, usados principalmente como contenção;
* Contenções ortodônticas, utilizadas após o tratamento ativo, para manter o resultado obtido.
Além disso, há também os mini implantes ortodônticos, utilizados para ancoragem esquelética.
Tratamentos ortodônticos: qualidade de vida
Os tratamentos ortodônticos envolvem movimentações dentárias e remodelação óssea, equilibrando estética e função. Atualmente, com o advento da tecnologia digital, as avaliações tomográficas têm se tornado fundamentais nas decisões terapêuticas, especialmente nos casos que exigem abordagens cirúrgicas ou multidisciplinares, conforme definiram as especialistas Carla e Soo.
Todas as técnicas terapêuticas voltadas à correção das maloclusões integram os objetivos da Ortodontia, desde orientações de encaminhamento a outras especialidades, como otorrinolaringologia e fonoaudiologia, até tratamentos ortopédicos que promovem o crescimento craniofacial equilibrado e a movimentação dentária com aparelhos fixos ou alinhadores.
A Ortodontia trata principalmente as maloclusões e, mesmo que muitas vezes motivada por queixas estéticas do paciente, vai muito além da aparência. O tratamento ortodôntico busca alcançar a harmonia do sorriso, preservando a saúde dos tecidos de sustentação dentária, como gengivas e ligamento periodontal, além de favorecer e melhorar funções bucais essenciais, como mastigação e respiração. Dessa forma, contribui significativamente para a saúde geral, a autoestima e a qualidade de vida do indivíduo.


